Alterolatria
Uma idolatria não do "eu", mas do outro
Em 2019, no meu mestrado em teologia, defendi uma descrição da idolatria moderna como um fenômeno essencialmente relacional (ou seja, entre humanos) que se constitui de dois movimentos, um para cima e um para baixo. É fácil vislumbrar isso quando imaginamos uma cena em que uma pessoa é adorada e outra adora: a primeira se ergue sobre um altar e a outra se abaixa.
Como seres caídos, todos nós tendemos a esses dois movimentos, sejam externos, com pessoas reais, sejam internos, em pensamentos e emoções: ou desejamos ser ídolos, ou desejamos nos prostrar diante de ídolos.
Ambos os movimentos são condenados na Bíblia. Quem se apresenta para ser idolatrado engana-se quanto a possuir qualidades de Deus. E, do ponto de vista de quem idolatra, a idolatria, no meu entender, consiste em transferir prerrogativas de identidade para outro ser em vez de Deus. A criatura humana só pode caber em Deus, mas tenta espremer-se na caixa estreita de outra criatura.
Por algum motivo, apenas o primeiro movimento — o da autoelevação — tem sido incessantemente descrito como um movimento relacional pela teologia cristã ao longo dos séculos, geralmente como o pecado do orgulho. O movimento oposto, quando surge em contextos relacionais, costuma ser analisado sob um viés positivo na nossa tradição, confundido geralmente com humildade e modéstia. Porém, a experiência mostra que há formas relacionais em que alguém se encolhe diante de um outro mais elevado como quem caminha para a autodestruição, e não para a santidade.
Ao longo dos anos, tem aumentado minha compreensão de que o problema fundamental, além do foco excessivo no “eu”, é também o foco excessivo no outro, e nossa teologia precisa abarcá-lo. Não se trata de um problema estanque, e sim de um desequilíbrio básico na autopercepção — originado na Queda — que nos faz oscilar desde o extremo da egolatria até o extremo de uma alterolatria, ou autorrebaixamento, em um movimento pendular que não descansa.
Por que a teologia contemporânea descreve idolatria a objetos, como casas e carros, e a abstrações como fama e beleza, mas se “esquece” do idólatra de gente? Imagino que por motivos históricos, mas também por diferenças entre homens e mulheres, já que a teologia ainda é em grande parte uma área masculina. Parece-me que o homem tende mais ao foco no eu (afinal, vindo antes de Eva, Adão soube ser só no mundo) enquanto a mulher, criada como parceira do homem, tenderia ao foco relacional — que, em sua pior versão, seria o que tem sido descrito na psicologia como codependência. Isso explicaria, imagino, o maior número de mulheres como vítimas de abuso.
É uma hipótese razoável, que já tenho investigado. Mais nos próximos textos.



Aguardando a continuação!
Tenho me interessado bastante por esse assunto (idolatria). Norma, entendo que seria interessante você pesquisar sobre a diferença da codependência e a dependência emocional. Penso que, neste caso, se aplique mais a segunda.