Denúncia e maravilhamento
É preciso sim apontar o mal, mas com sua contrapartida sempre
Quem me conhece apenas pela denúncia do abuso no meio evangélico enxerga algo muito fundamental em meu trabalho, mas não o panorama completo do que faço sob o “guarda-chuva” Teologia & Beleza.
Esses dias, a corajosa pastora Helena Raquel foi profeta ao entregar no congresso dos Gideões uma pregação preciosa sobre Juízes, denunciando a tolerância ao abuso e o acobertamento institucional. Ela apontou a feiura mas não permaneceu só nisso, provendo meios de ajuda para quem a ouvia e recomendando providências como secretarias de acolhimento nas igrejas.
No T&B, eu também aponto a feiura e não permaneço só nisso. Meu escopo é maior e ecoa um procedimento comum nas obras de arte: assim como o escuro ressalta o claro nas pinturas de Caravaggio e a dissonância prepara o caminho para a resolução no jazz, o abuso, em minha teologia, é o negativo que ressalta o tov de Deus.
Nessa acepção mais ampla, o abuso é o avesso do ato de Deus na criação, a tentativa de desfigurar no outro a imagem do Criador. Assim como a serpente na Queda, o abusador comete o supremo roubo, suprimindo a imagem do verdadeiro Deus no coração humano e substituindo-a pela sua própria, monstruosa, voraz. Quando a identidade é fragmentada pela violência do abusador, que é como um deus que esmaga em vez de agraciar, abre-se solo fértil na alma para a construção de imagens falsas de si. Sem o parâmetro da bondade divina, aceitamos o caos de uma autoridade egocentrada sobre nós. Sem o reconhecimento de quem Deus é e de quem somos diante dele, perdemos a régua para medir o desvio.
É aqui que o maravilhamento revela sua força espiritual.
Caravaggio, O chamado de São Mateus
Enquanto no mundo tanta gente estimula e pratica o maravilhamento como pura embriaguez estética — um modo idolátrico de postar-se diante das obras de arte —, esse “oh” como resposta à beleza de Deus e de sua Palavra é o que nos permite abraçar a realidade tal como Deus a criou, reconhecendo que, embora maculada pelo pecado, guarda uma origem boa e um destino redimido. E isso muda tudo.
Vou correlacionar todas essas percepções no Primeiro Seminário T&B (lista de espera aqui), um encontro virtual de três horas para ler Gênesis 1—3 com impacto, alegria e gratidão. Um dos objetivos do T&B é o fortalecimento de uma fé que não se restringe à certeza da salvação futura, mas que faz toda a diferença para a autopercepção aqui e agora — pois essa é a força que vem de Deus. A mulher que redescobre a imagem de Deus em si, que entende o “muito bom” do Criador, torna-se perigosamente livre das armadilhas do opressor. Ao entender que, pelo sacrifício de Cristo, ela é obra divina em recuperação, recupera o solo sob os pés e consegue enxergar a si mesma com a beleza que se origina Nele.
Essas reflexões vêm ganhando corpo nesta minha “casinha” do Substack, onde compartilho textos do Teologia & Beleza com mais continuidade e proximidade. A partir de hoje, a maior parte do arquivo passa a integrar o espaço dos assinantes pagos — não como um fechamento de portas, mas como um modo de sustentar e aprofundar esse trabalho de formação do olhar, cuidado e maravilhamento diante de Deus e de sua criação.


