Abstração e indiferença
Quando é necessário o olhar feminino
São muitos os relatos de pastores que, apesar de pregarem corretamente o evangelho e sustentarem uma teologia aparentemente sólida, erram de modo terrível quando se trata da vida concreta das mulheres. Alguns chegam a proibir ou até disciplinar uma esposa que decide se divorciar de um marido abusador — mesmo em casos de violência física.
Essa confluência entre ortodoxia teológica e cegueira prática é incoerente e devastadora para a igreja.
Foto de Martino Pietropoli na Unsplash
O que tenho percebido, junto com meu marido, é que muitos líderes vivem nas alturas da abstração. São capazes de articular sistemas doutrinários consistentes, mas, quando a vida real exige respostas concretas, a aplicação se torna perigosa.
E a forma como reagem diante do sofrimento revela o coração: há pastores cujo ensinamento abstrato acaba expondo certa indiferença pastoral. Repetidamente vimos essa frieza. Só quando a dor se aproxima de sua própria vida é que alguns passam a enxergar. Wayne Grudem, por exemplo, durante anos ensinou que o divórcio não era permitido nem mesmo em situações de abuso. Só mudou de posição depois de acompanhar de perto o sofrimento de uma amiga próxima.
Acredito sinceramente que, se pastores e teólogos ouvissem mais as mulheres e acolhessem suas colaborações — como Paulo fez ao citar tantas auxiliadoras em suas cartas — esse afastamento do real seria menos frequente. John Frame já alertava: o aspecto normativo (a lei, o que Deus ordena) precisa ser equilibrado com o situacional (o contexto concreto) e o existencial (a vida interior, com suas dores). Por algum motivo — em parte porque Deus quis assim, em parte, talvez, por causa do pecado — as mulheres tendem mais à concretude que os homens.
Infelizmente, quase não vemos hoje líderes que imitem Paulo agradecendo pela colaboração das mulheres — nem mesmo a de suas próprias esposas. Isso me entristece. Não estou defendendo que mulheres sejam pastoras (essa é outra discussão), mas que sejam reconhecidas como membros ativos e atentos do corpo de Cristo. Muitas vezes, pela sensibilidade que a vida nos ensinou (e com que às vezes nos afogou), somos capazes de perceber sinais de abuso antes que os líderes percebam. Ignorar esse fato, penso eu, é uma falha grave de nossa igreja contemporânea.
Lembrete: se você quiser mergulhar um pouco mais nesse tema, lancei no ano passado o livreto Quando o amor vira diagrama: Por que o esquema do guarda-chuva abre portas para abuso no casamento e na igreja.



O título do artigo se encaixa perfeitamente na análise do contexto: quando a doutrina gera abstração, subindo demais em vez de descer ao coração, as pessoas sofrem. Acho que o pior é a lógica falsa que é gerada de que doutrina/teologia demais gera frieza espiritual. Como colocado, não se trata de frouxidão doutrinária, mas de aplicação amorosa pra quem sofre.